Este texto que me chegou através de Marlice Almeida é bastante pertinente ao que penso, daí achei que seria boa opção para iniciar o blog...
Herança viva, longe da academia
É flagrante o descaso de intelectuais brasileiros com pesquisa sobre a riqueza estética e iconográfica da cerâmica nacional
A cerâmica é um ponto de inflexão do processo civilizador, tão importante quanto o foi a pedra lascada. Em primeiro lugar porque pedra e madeira, quando foram usados nos primórdios da civilização, o foram apenas como alterações de sua forma externa, enquanto que a cerâmica foi uma transformação da matéria, de lama e terra, em material sólido, indistinguível, sob um aspecto primitivo, da pedra. Além do mais, devido a sua plasticidade, foi desde o início necessário adicionar à argila materiais antiplásticos para produzir os artefatos desejados, o que podemos entender como o nascimento da engenharia.
A segunda razão para considerar o advento da cerâmica como o acontecimento técnico culminante, desencadeador da civilização, é a função social edificante dos objetos assim produzidos. Enquanto a pedra lascada servia antes à caça e à guerra, ou seja, a ações violentas, a cerâmica prestou-se à manutenção e cocção de alimentos, atividades pacíficas, agregadoras. Talvez como consequência mesmo destas duas características tenha a cerâmica também adquirido tantas outras atribuições. Há uma certa magia na transformação da lama em pedra, o que poderia estar na raiz das inúmeras manifestações míticas e historiográficas inscritas em cerâmicas em praticamente todas as culturas. E não foi também da lama que Jeová, deus semita-cristão, fez o homem, do mesmo material de que é feita a cerâmica? Assim sendo é de espantar e de lamentar a quase total indiferença do mundo acadêmico nacional em relação à cerâmica pré-colombiana brasileira.
Verifica-se que as mais antigas culturas ceramistas das Américas não se encontram nem no México dos Olmecas e de Tlatilco, nem no Peru de Cupismique e Chavin ou no Equador de Valdívia, mas no Brasil, em Tapeirinha, em Pedra Pintada. Tapeirinha, com suas peças de 5.600 a.C, não somente é anterior a qualquer outra cerâmica americana como também o é àquelas da Europa, incluída a Grécia. Somente no Japão (Cultura Jomon, 10 a 12 mil anos a. C.) e no norte da África a cerâmica é anterior à brasileira, sendo aquela famosa de Starcevo (Balkans) tão somente contemporânea à de Tapeirinha.
Também do ponto de vista estético poucos, em todo o mundo antigo, são os exemplos de cerâmicas tão originais e harmoniosas quanto aquelas urnas para exumação secundária; ou tão elaboradas e expressivas quanto os vasos sustentados por cariátides da cultura tapajoara. Pois bem, tanto quanto a importância histórica como quanto à riqueza estética e iconográfica, a cerâmica brasileira se revela pelo menos tão atraente quanto qualquer outra do mundo para a exploração acadêmica. Não obstante, a universidade e a academia nacionais pouco ou nada de seus esforços dedicam a esta herança, a este passado insigne. Tenho à minha frente, como comprovação inquestionável desta deficiência, um volume da série Technology and Innovation in Ancient Societies, da Sociedade Smithsonian, que versa sobre o "Advento da Cerâmica". O excelente capítulo sobre a cerâmica brasileira primordial, escrito pela pesquisadora americana Ana C. Roosevelt, cita, dentre 33 artigos técnicos, apenas dois boletins do Museu Paraense (Goeldi).
Parece-nos que arqueólogos brasileiros se ocupam mais da antiguidade grega e romana do que daquela de seu País. Para apreciar as requintadas cerâmicas marajoara e tapajoara têm os brasileiros que recorrer aos museus europeus e americanos, contrariamente ao que acontece com o povo peruano, por exemplo, que dispõe de imensa amostragem da cerâmica de seu país, centenas de milhares, em dezenas de museus espalhados por todo o seu território. É de indagar-se, se a falta de autoestima que caracteriza o brasileiro não seria exacerbada por tanta omissão dos intelectuais nas universidades e academias brasileiras em relação ao seu próprio patrimônio cultural.
A cerâmica é um ponto de inflexão do processo civilizador, tão importante quanto o foi a pedra lascada. Em primeiro lugar porque pedra e madeira, quando foram usados nos primórdios da civilização, o foram apenas como alterações de sua forma externa, enquanto que a cerâmica foi uma transformação da matéria, de lama e terra, em material sólido, indistinguível, sob um aspecto primitivo, da pedra. Além do mais, devido a sua plasticidade, foi desde o início necessário adicionar à argila materiais antiplásticos para produzir os artefatos desejados, o que podemos entender como o nascimento da engenharia.
A segunda razão para considerar o advento da cerâmica como o acontecimento técnico culminante, desencadeador da civilização, é a função social edificante dos objetos assim produzidos. Enquanto a pedra lascada servia antes à caça e à guerra, ou seja, a ações violentas, a cerâmica prestou-se à manutenção e cocção de alimentos, atividades pacíficas, agregadoras. Talvez como consequência mesmo destas duas características tenha a cerâmica também adquirido tantas outras atribuições. Há uma certa magia na transformação da lama em pedra, o que poderia estar na raiz das inúmeras manifestações míticas e historiográficas inscritas em cerâmicas em praticamente todas as culturas. E não foi também da lama que Jeová, deus semita-cristão, fez o homem, do mesmo material de que é feita a cerâmica? Assim sendo é de espantar e de lamentar a quase total indiferença do mundo acadêmico nacional em relação à cerâmica pré-colombiana brasileira.
Verifica-se que as mais antigas culturas ceramistas das Américas não se encontram nem no México dos Olmecas e de Tlatilco, nem no Peru de Cupismique e Chavin ou no Equador de Valdívia, mas no Brasil, em Tapeirinha, em Pedra Pintada. Tapeirinha, com suas peças de 5.600 a.C, não somente é anterior a qualquer outra cerâmica americana como também o é àquelas da Europa, incluída a Grécia. Somente no Japão (Cultura Jomon, 10 a 12 mil anos a. C.) e no norte da África a cerâmica é anterior à brasileira, sendo aquela famosa de Starcevo (Balkans) tão somente contemporânea à de Tapeirinha.
Também do ponto de vista estético poucos, em todo o mundo antigo, são os exemplos de cerâmicas tão originais e harmoniosas quanto aquelas urnas para exumação secundária; ou tão elaboradas e expressivas quanto os vasos sustentados por cariátides da cultura tapajoara. Pois bem, tanto quanto a importância histórica como quanto à riqueza estética e iconográfica, a cerâmica brasileira se revela pelo menos tão atraente quanto qualquer outra do mundo para a exploração acadêmica. Não obstante, a universidade e a academia nacionais pouco ou nada de seus esforços dedicam a esta herança, a este passado insigne. Tenho à minha frente, como comprovação inquestionável desta deficiência, um volume da série Technology and Innovation in Ancient Societies, da Sociedade Smithsonian, que versa sobre o "Advento da Cerâmica". O excelente capítulo sobre a cerâmica brasileira primordial, escrito pela pesquisadora americana Ana C. Roosevelt, cita, dentre 33 artigos técnicos, apenas dois boletins do Museu Paraense (Goeldi).
Parece-nos que arqueólogos brasileiros se ocupam mais da antiguidade grega e romana do que daquela de seu País. Para apreciar as requintadas cerâmicas marajoara e tapajoara têm os brasileiros que recorrer aos museus europeus e americanos, contrariamente ao que acontece com o povo peruano, por exemplo, que dispõe de imensa amostragem da cerâmica de seu país, centenas de milhares, em dezenas de museus espalhados por todo o seu território. É de indagar-se, se a falta de autoestima que caracteriza o brasileiro não seria exacerbada por tanta omissão dos intelectuais nas universidades e academias brasileiras em relação ao seu próprio patrimônio cultural.
Rogério Cezar de Cerqueira Leite é professor emérito da Unicamp, presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Laboratório Síncrotron, Centro de Bioetanol, Centro de Biologia Molecular, Centro de Nanotecnologia) e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo
Silvinha, querida, todo dia venho aqui pra ver se postou mais alguma coisa. Não se avexe, viu, pois para qualquer dúvida estou aqui, sempre aqui.
ResponderExcluirbeijos, N
Oi, Silvia, que bom te encontrar novamente. Havia perdido seu contato, mas agora te achei de novo. \0/
ResponderExcluirEstou feliz!
Beijos
Sol